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Do videocassete ao streaming: como os hábitos de consumo moldaram a inflação no País

café da manhã getty images

Sai o fogão a gás, entra a air fryer. Sai café coado, entram as cápsulas de café de máquina. Sai enceradeira e entra robô aspirador. Sai videocassete entra serviço de streaming. Todas essas alterações foram sendo feitas na lista de produtos pesquisados pelos principais indicadores de preços nas últimas décadas, mostrando que o padrão de consumo do brasileiro vem mudando muito ao longo do tempo.

A mudança na importância dos produtos para a sociedade é justamente o que define a entrada ou a saída de produtos da conta feita pelos institutos para estabelecer os índices de inflação que acompanhamos até hoje.

Mas, então, como é formada essa cesta de produtos utilizada como medida para o custo de vida da população? Segundo o economista e professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Heron do Carmo, essa lista inclui produtos de maior consumo nos domicílios brasileiros, sendo atualizada dentro da estrutura de ponderação ao longo dos anos, conforme os hábitos.

O professor explica que a base de tudo são as Pesquisas de Orçamentos Familiares, mais conhecidas como POFs, feitas pelo Instituto Brasileiro do Geografia e Estatística (IBGE). Esse levantamento leva em conta, de forma detalhada, os registros de consumo dentro de uma amostra representativa de domicílios.

“Produtos e serviços que perdem importância em termo de despesas a ponto de não serem mais consumidos ou terem registros insignificantes de consumo, são retirados da cesta dos Índices de Preços ao Consumidor. Por outro lado, produtos e serviços novos que assumem importância nas despesas pessoais acabam sendo incluídos”, afirma.

Entre os indicadores mais importantes para medir a inflação no Brasil estão Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE, e o Índice de Preço ao Consumidor (IPC), que mede a inflação na cidade de São Paulo, feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

Veja a evolução do IPCA

Categoria Produtos no IPCA em 1980 Produtos no IPCA hoje
Alimentação Arroz, feijão, carne de boi, leite em pó, óleo de soja, açúcar refinado, café torrado Produtos orgânicos, leite sem lactose, carne de frango e suína, azeite de oliva, café em cápsulas
Bebidas Refrigerante em garrafa de vidro, suco de laranja em lata Água mineral, sucos naturais e integrais, bebidas energéticas, cervejas artesanais
Eletrodomésticos Geladeira, fogão a gás, enceradeira, videocassete Máquina de lavar louça, micro-ondas, aspirador robô, air fryer, smart TVs
Tecnologia Telefone fixo, toca-discos, rádio AM/FM Smartphone, serviços de streaming, assinatura de internet banda larga, smartwatch
Transporte Carro a álcool, passagem de ônibus urbano, gasolina comum Aplicativos de transporte, carro por assinatura, veículos elétricos, gasolina aditivada
Moradia Aluguel, conta de luz Condomínios fechados, painéis solares, aluguel por temporada (Airbnb), gás encanado
Lazer Cinema, aluguel de fitas VHS, máquina fotográfica analógica Streaming de filmes e músicas, pacotes de TV por assinatura, câmeras digitais e drones
Cuidados pessoais Sabonete em barra, creme dental tradicional, barbeador manual Cosméticos veganos, protetor solar com FPS alto, lâmina de barbear descartável moderna
Educação Enciclopédias, apostilas impressas, cursos presenciais Cursos online, livros digitais (e-books), plataformas de ensino a distância
Pets Ração básica para cães e gatos, coleira simples Ração premium, plano de saúde pet, creches e hotéis para pets, brinquedos inteligentes

Mudanças recentes

A última mudança na cesta de produtos feita pelo IBGE foi em 2019, quando itens como aparelhos de DVD deixaram de ser pesquisados, abrindo espaço para o gasto com streaming, numa clara dimensão da mudança do hábito do brasileiro.

Nessa última mudança, o IBGE incluiu 56 itens no cálculo da inflação. Houve aumento do peso, por exemplo, de gastos com pets e com transporte, incluído nisso o uso com aplicativos de carros.

Aliás, esses gastos com transporte se tornaram um dos principais componentes do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial, respondendo por 20,8% do índice. Dessa forma, esse grupo ultrapassou o de alimentação e bebidas, que eram os principais e que respondiam por 22% e agora estão com 19%. Tudo isso foi feito diante dos dados da última POF, realizada entre 2017 a 2018, conforme o instituto.

Gráfico da Agência Brasil com dados do IBGE

Novos estudos

Em outubro do ano passado, o IBGE anunciou o início de mais uma pesquisa. A sétima edição da POF começou efetivamente em 5 de novembro de 2024, com a saída dos pesquisadores a campo, devendo ser encerrada em novembro de 2025. Os primeiros resultados do novo levantamento estão previstos para o final do primeiro semestre de 2026. Para isso, mais de 100 mil famílias serão acompanhadas nesse período de 12 meses, para retratar a rotina dessa população.

Segundo o IBGE, esta edição de 2024-2025 trará não somente a investigação dos rendimentos e gastos individuais e dos domicílios, como indicará outras temáticas, como a segurança alimentar dos brasileiros, a qualidade de vida, informações de restrição de acesso a medicamentos. “A POF está em constante atualização para atender às demandas da sociedade”, informou o IBGE.

Hábitos mudando o custo de vida

Aliás, todas as mudanças são ditadas pelos hábitos de consumo, de acordo com o economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), André Braz. “Por isso, a cada cinco anos, em média, são feitas essas POFs e já existe a recomendação de que precisariam ser realizadas a cada dois anos, em função das rápidas mudanças sociais. Porém, como envolve o levantamentos por todo o país e por todas as classes sociais, ela é muito cara”, lembra o professor.  

Tudo é avaliado de forma totalmente científica, segundo Braz, analisando variações no consumo e na sazonalidades de produtos, contando com safras e entressafras. Há itens que não mudam, como gastos considerados básicos, onde estão alimentação, moradia, educação e saúde.  

“Mas gastos com carro por aplicativo, streaming e, mais recentemente, com aluguel de veículos ou carros por assinatura, mostram as mudanças sociais que vão sendo incorporadas na formação dos índices”, disse Braz. Ao mesmo tempo coisas que eram consideradas importantes nos lares brasileiros como enceradeira ou videocassetes já não existem mais.

Necessidades diferentes em classes diferentes

A mudança de hábitos também é diferente por faixa de renda, mostrando as diferenças em um país muito desigual como o Brasil. Famílias humildes tem mais restrições na hora de fazer suas compras. Quanto menor a renda, maior é a concentração em itens básicos como alimentos, indicando maiores desafios para bancar os custos de vida. “Por outro lado, a maior diversificação da cesta indica que as famílias podem estar ficando mais ricas e passando a ter outras prioridades”, explica o economista do FGV/Ibre.

Os indicadores podem mostrar ainda se o brasileiro está comendo melhor ou pior. Os dados mostram se as pessoas estão engordando ou emagrecendo, se as famílias estão aumentando ou encolhendo, ou se as população está envelhecendo, com menor número de crianças nos lares.

“Assistimos a várias mudanças na configuração das famílias ao longo dos anos. O que acaba mudando a cesta de consumo, porque uma família com mais crianças inclui gastos com educação, material escolar e até chocolates. Já numa família com idosos o peso maior é com plano de saúde, medicamentos, alimentos in natura, bem como menores gastos com transporte. E isso tudo vai interferir em como essa família percebe a inflação no final das contas”, afirma Braz.  

Por isso, as POFs são consideradas o melhor retrato da sociedade, indo muito além da inflação. Não é à toa que muitas empresas levam essas pesquisas em consideração, para saber como as indústrias precisarão se preparar para atender a todas as demandas, segundo o professor.

“Dessa forma, se um item como o sal subisse 50% hoje, não teria mais a relevância na vida das pessoas como já teve há séculos”, explica o especialista da FGV, que há 35 anos acompanha a evolução da inflação e da sociedade brasileira como um todo.

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